• F. M. Bonato

Trivialidades

Eliane tinha apenas cinquenta e três anos quando viu Soraia ser baleada. (Nunca se é velho o suficiente para lidar com a morte.) Nascida em Duque de Caxias, Eliane viveu de forma pacata e sem holofotes. Era uma pessoa qualquer. Fez escola, se formou, fez faculdade de administração, não se formou, e seguiu a vida como vendedora de loja de roupas. Por toda sua vida esperou que algo acontecesse, algum evento, alguma obra divina que a salvasse. Um dia Eliane estava caminhando quando ouviu um disparo. Atônita, olhou para os lados, queria entender a situação. Foi quando viu Soraia. Esta, ainda de pé, percebeu Eliane se aproximando, ajoelhou-se e disse: - Amor!... E caiu no chão. Foi vítima de assalto frustrado, daqueles que o bandido não consegue o que quer e se vinga como quer. Soraia morreu no duro, virou notícia. Eliane pôs-se a chorar, sabia que sua vida continuava a mesma.


Machado não era, digamos assim, dos homens mais elegantes que poderia namorar Júlia. Mas sua feiura, chatice e falta de higiene talvez tenham sido centrais para atraí-la. Se conheceram pelo cunhado, Arthur, que tinha Machado como melhor amigo. Machado ficava dias e mais dias e noites e mais noites na casa de Arthur, e assim conheceu Júlia. Um dia, Arthur dormiu antes da hora, deixando Machado e Júlia interagirem mais do que deveriam. De um encontro aqui e outro ali, meio às escondidas, surgiu um namoro improvável. Dois anos foram necessários para tudo se acabar. Passaram por um término de namoro complicado - muito choro para lá e para cá -, mas depois de um ou dois meses, um já não mais lembrava a cara do outro.


Não foi a primeira vez que tentou se matar. No auge de seus quarenta e cinco anos, Belmiro era triste. Gastava seus dias livres empreendendo nada, e não raro bebia. Se tornara um empresário bem sucedido antes dos trinta. A vida já lhe parecia enfadonha, mesmo tentando de tudo um pouco. Estudou direito, administração, fez uma empresa, depois outra e depois mais uma. Não ficou satisfeito. Em algum momento de delírio disse que não dava, que não aguentava mais, e se atirou na frente de carros que driblaram seus movimentos. Passado alguns meses, e em meio a um pileque, forçou a barra. Queria porque queria beber mais. Entrou em coma. Sobreviveu. Também teve a vez que quis saltar da Ponte Rio-Niterói, só que desistiu de última hora. Quando então Belmiro pulou do décimo terceiro andar de seu prédio, não foi a primeira vez que tentou suicídio, mas a primeira que conseguiu.


Um simples caso de inteligência numa família brasileira pode destruí-la. Fernanda, por azar, era filha de um pai inteligente ou supostamente inteligente. Tias, cunhadas, vizinhos, cochichavam: - “É uma cabeça! Uma cabeça!”. O velho fazia uns sonetos parnasianos. Fernanda leu um deles, tremendo de beleza. Guardou dos versos uma palavra que a atropelava: - arrebol. Pois a garota não casou nunca. Viveu para o pai. Morreu antes dele, tuberculosa. Pode-se dizer que foi assassinada por uma meia dúzia de sonetos jamais publicados.


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