• Juliana Mesomo

Templo

Quando, por algum motivo, o sono não vem, fico repassando os detalhes do quarto. Não este em que estou. Outro, bem longe daqui. Primeiro, a cama de ferro, antiga, que ainda range um pouco. Depois, a cadeira de palha encostada na porta de madeira. Sobre a cadeira, descansam minhas roupas de viajante cansada. De gente forânea. Os lençóis na cama são brancos com bordados azul-escuro nas pontas. Floridos. O travesseiro branco espera que eu deite a cabeça depois de um banho. O espaço na cama é para dois, mas geralmente tenho ele todo para meu próprio sono plácido. O armário também me agrada. Não é antigo, mas gosto dele porque ali são guardados todos os cobertores da casa. Quando não for mais verão, serão usados dois ou três por cama, contra um frio ingente. O armário também é de madeira, e termina de ocupar o menor dos quartos da casa. De fato, todo ele é de madeira -- o assoalho, as paredes, as janelas -- porque toda a casa também é de madeira, simples e espaçosa. Cinco quartos, uma sala e uma cozinha. Do lado de fora, está revestida por uma tinta velha, verde clara. Trata-se de um magnífico templo de madeira que pela noite estala, voltando a se acomodar depois de ter se expandido num dia de calor. Me agrada muito dormir sob o teto desse templo. Eu o venero. Escuto o vento passar pelas folhas das árvores cujas copas encontram-se bem em frente à janela. Deixo-a aberta para a noite fresca entrar no quarto. Uma cortina leve e branca balança com os eflúvios das estrelas longínquas. Alguns teriam medo. Multidões de grilos falam no meio das lavouras e dos capões. Os parapeitos das janelas da casa são lisos de tanto uso, de tantas mãos que se apoiaram ali ao longo do tempo. Calculo em umas seis décadas a existência da casa neste mundo. Na sala, vazia e escura, qualquer passo seria escutado: as tábuas rangem, não são discretas. Se por acaso algum dos moradores que já usaram o quarto voltasse eu nada poderia fazer a não ser ceder o meu lugar. Sou simplesmente uma visita. Talvez a filha que se entrincheirou nele até o fim da vida volte para reivindicar seus domínios. No seu tempo, não havia serviço de saúde mental e a pessoa fascinada (como diziam) ficava a cargo da família, que nem sempre tinha paciência ou modos para tratar com os nervos alheios. Ali, a filha solteirona gritou de dor e loucura, se vestiu de preto e criou seu mundo até findar de vez. Também poderiam chegar, antes dela, os meninos que cresciam juntos, dormiam juntos, comiam juntos, iam juntos a cavalo para a escola, tudo isso sem deixar de pressentir como um castigo seus destinos de homens atados à terra, que os mantinha longe das circunstâncias da História. Crianças e adultos à margem dos acontecimentos. Meninos que ouviam juntos o rádio anunciando o gol e que despertavam pela noite para ouvir os sussurros metálicos da máquina. Que ouviam os vizinhos trazendo a notícia de que o "homem chegou à lua!" e recebiam de volta a reação incrédula do pai. Simplesmente não era possível. Meninos que dormiam e sonhavam com os mundos que poderiam existir longe dos quilométricos milharais.


De manhã, somos todos guiados pela fumaça até a cozinha para comer rigorosamente o de sempre. O pão, o café, a chimia, o queijo. Enxergo -- já não pela primeira vez -- os parapeitos lisos das janelas e, lá fora, os milharais que nos separaram do resto do mundo. Não sou eu quem habitará para sempre o templo de madeira, mas posso assegurar que não esqueci dele nenhum detalhe.


176 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo