• João Gabriel

O nome primeiro

Das duas vias de chegada no distrito da Parada do Ipê, Marco só acredita em uma, a vicinal que vem da cidade pela antiga estrada boiadeira. A outra desce da rodovia estadual por um acesso que passa por duas chácaras onde a gente rica vem festejar os casamentos ou coisa do tipo. Batizados, como ele suspeitou uma vez, embora lhe escape por completo por que alugariam um desses lugares enormes para cristianizar um bebê. É nessa aí que ele não acredita. O motivo oficial usado para justificar sua descrença é o fato de que foi com esse caminho que o distrito mudou definitivamente de nome, de Parada do Ipê para distrito Delegado Luiz Araújo. Foda-se Luiz Araújo. Quem conheceu o tal delegado foi seu pai, e Marco não sabe em que circunstâncias. Talvez não nas melhores. Mas não é por isso que ele odeia o delegado, odeia-o porque ama muito e demais a Parada do Ipê. Seu avô foi quem lhe ensinou o valor dos nomes originais. Na juventude, Marco Avô tinha um pequeno pasto e negociava umas vaquinhas, isso até os dez ano de idade de Marco Neto. O avô nunca mudava o nome de suas vacas, se elas já viessem batizadas. Foi assim que seu curral se tornara o lar de Sapata, de Santa Helena e de Flávia. “Não mudo porque nome primeiro é coisa séria”, dizia. E é assim que Marco aprendeu. O local de seu nascimento e lar de toda sua vida é a Parada do Ipê.


Há outros motivos pelos quais Marco não acredita no caminho da rodovia, mas esses ele não expõe. O que não impede a gente toda de achar que a razão capital é que foi por esse caminho que seu pai foi embora, quando Marco tinha 14 anos. O garoto sem mãe – morreu de febre depois do parto – e sem avó foi desde então criado pelo Marco Avô, hoje meio alquebrado, mas bem da cabeça e esperto em quase tudo. Marco sabe que acham isso e gosta que achem isso. Porque é mentira. Seu pai não sumiu catorze anos atrás seguindo a estradinha onde ainda não existiam as chácaras das gentes ricas e nem subindo para rodovia estadual. Seu pai, só ele e o avô sabem, sumiu pela ferrovia que corta a cidade e o distrito. Ele não viu isso acontecer, mas ouviu seu pai dizendo pro avô algo assim como “Vou sumir num vagão”, “Vou subir num vagão”. Então foi isso que ele fez, deixando ao filho nada além do Chevette 1988 prateado. É com esse carro que ele se recusa a entrar na Parada do Ipê pela estadual todas as manhãs, quando volta do trabalho como vigia noturno da revendedora de caminhões na cidade. Entra pela vicinal. Demora mais, mas é uma escolha de vida, uma escolha entre a mentira e a verdade, o nome primeiro e o enganoso.


Ninguém perde muito tempo, porém, se perguntando a respeito do caminho verdadeiro, da razão de Marco preferi-lo para entrar no distrito, e usar o da rodovia só para sair. Marco sai todas as tardes para chegar ao trabalho um pouco antes do horário. Pega a rua da casa, desce pela Torre d’Água e chega na igreja de Santa Duvirge, o ponto em que faz o sinal da cruz (como fazia em menino lá dentro, quando tinha vontade de beijar os pés do Jesus, sabendo que nunca os alcançaria), atravessa a linha do trem e pega o caminho das chácaras para subir à rodovia. Entre o distrito e a cidade, na autoestrada, fica o posto de gasolina onde ele sempre abastece o Chevette. Porque é o posto do amigo Júlio. “Oi, Júlio”, “Fala, Marcos!”. Ele adora isso. Trocam algumas amenidades, falam de qualquer coisa, do tempo, das notícias, do trabalho, da vida toda ou só de uma parte dela. E então Marco segue para a revendedora. Chega lá antes de fechar e fica quase até o raiar do dia, às vezes até ficar claro.


Se alguém pudesse estar dentro de Marco voltando do trabalho pela vicinal, vendo o que ele vê e sentindo o que sente ao fechar essa órbita de rodovia e vicinal, talvez então entenderia as razões de Marco. Ele vem da cidade, passa pelos lagos, pelos bairros das gentes ricas que alugam as chácaras e chega à vicinal. Tem madrugadas que ele chega junto com o trem de carga – a ferrovia lá embaixo, ao longo da estrada –, o comboio seguindo o mesmo rumo que seu pai seguiu. E Marco o acompanha, ouvindo o apito e imaginando que vai embora também. Só imaginando. Quando a estradinha faz uma curva que deixa o trem mais longe, Marco sabe que está perto do campinho. Aqui é o mais importante. Foi lá onde ele se deu conta, um ano antes do pai ir embora, que gostava dos meninos mais do que esperariam que gostasse. Foi enquanto jogavam bola e ele sentiu uma euforia e depois tristeza, sem saber o motivo. Disse a Júlio que ia mijar lá atrás e saiu do jogo. Sentou-se à sombra do ipê e chorou um pouco. Chorou porque percebeu que não queria nunca ser chamado de outra coisa que não Marco ou Neto. E teve medo. Quando passa de Chevette pelo campinho e vê o ipê na alvorada, Marco não sente vontade de chorar. Mas sente uma euforia e depois tristeza. Passa rápido, essa última, e fica algo doce. “Tipo o amanhecer, sei lá”, Marco pensa.


Nunca lhe chamaram de outra coisa na vida que não Marco ou Neto. A não ser por duas pessoas. Tatiana, a gerente da revendedora onde trabalha, que Marco encontra ao chegar e às vezes quando sai de manhã (ela vem e vai de moto, alta e da cor da noite, o sorriso mais bonito que Marco já viu. Só não consegue dizer a cor de seus olhos, a luz do fim do dia e da manhã confundindo tudo. Devem ser da cor da noite também), e Vicente, o rapaz da cidadezinha que antes de eles dois nascerem tinha um primeiro nome e hoje tem outro. Vicente foi embora para São Paulo no ano passado. Ela o chama de Marquinho e ele o chamava de lindo.


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