• Thales Vieira

Morte ensolarada

Jorge não conseguia mais enxergar- estava trancado no quarto de um apartamento com um vira-lata marrom. Andava em círculos naquele local apertado, esbarrando em sua cadeira ou no próprio cachorro. Ambos isolados, com os estômagos roncando e as gargantas secas.


“Maldito foi o dia em que a visão me escapou”.


A janela do quarto permanecia escancarada- era verão, o sol invadia aquele cômodo minúsculo. Agonia perpétua? Talvez. Foram poucas as sentenças proferidas durante algumas semanas de isolamento. O barulho dos carros servia como música para um homem diante daquela situação- os dois permaneciam trancados desde o dia em que Jorge perdeu a chave da porta, e a visão. Folhas de papel com garranchos ilegíveis, marcas de sangue no chão, roupas surradas, canetas sem tinta, paredes sujas, maços de cigarro amassados por cima de uma mesa com um notebook que não funcionava mais, uma televisão com o visor destruído posicionada no meio do quarto, um ventilador desligado, porém, conectado na tomada. As lâmpadas queimadas- como se fizesse alguma diferença entre o dia e a noite para quem não pode mais enxergar. O vira-lata nunca latia- permanecia quieto no canto do quarto, lambendo as patas machucadas.


“Eu sou filho desses malucos que achavam uma boa ideia construir uma civilização”.


Foram as últimas palavras de Jorge antes de despejar um livro qualquer no chão, caindo desacordado durante uma manhã de sol. O vira-lata se aproximou, lambendo os cabelos castanhos, o rosto e os lábios ressecados daquele homem morto.

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