• Rafael Alonzo

Buraco

Quando Artur chegou em casa, tomou uma ducha fria. Secou-se com rispidez. Vestiu-se. Catou um pote da bolsa, foi à cozinha, apanhou um garfo da pia, escorou-se na geladeira e comeu a marmita como um bicho, enquanto olhava a parede.


Lembrou-se do vizinho e do filho que desciam pela escada do prédio naquela manhã. A criança descia como se o mundo não tivesse pressa, o pai achava graça. Artur observava, o velho ria e falava alto, quando o menino escorregou e rolou escada abaixo, para cair com a testa cortada, lavando o rosto do menino em sangue, pousando sombra nos olhos do pai.

Era inevitável lembrar-se de seu próprio pai. Mas não se lembrava da última vez que haviam se falado.


Antes do horário de almoço, Artur já havia preenchido, assinado, carimbado, envelopado, encaminhado a maior parte dos documentos da sua mesa. Funcionava no automático. A seus olhos eram papéis, cópias, planilhas, textos, envelopes, notas, post-its colorindo as bordas da tela do computador. Não era o que seu pai esperava.


— Seja médico, advogado, engenheiro, militar! — Não, seu pai não havia dito nada disso, mas contava histórias sobre conhecidos, amigos, parentes. Artur sabia o que deveria ter feito: ser piloto de avião.


Mas, agora, se via naquilo.

Trabalhava em um escritório. Morava sozinho desde o primeiro ano de faculdade. Isolou-se, não fez amigos, não fez contatos, não teve namorada.


Antes de ingressar no curso, seu pai faleceu atropelado por um ônibus. Sua mãe adoeceu em seguida. Demência precoce. Não saberia lidar com a mãe doente. Internou-a num asilo particular. De repente, viu-se sozinho, com a necessidade de arrumar emprego para sustentar a si e a mãe. Alguém comentou sobre um curso no qual conseguiria emprego logo no primeiro ano. E foi assim, rápido e sem dor.


Durante o expediente, não era de conversa. Fingia não escutar, na ida ao bebedouro, quando alguém caçoava “Como vai a mãe?”, nem as gargalhadas do escritório em seguida, ou ao se arrastar até a impressora, “Olha o morto-vivo!”, e todo mundo ria, ou na sala do café, catatônico, “Além de retardado é surdo?!”. Subsistia como uma rocha, quieto, seu rosto era indiferença, porque para Artur demonstrar emoção era fraqueza.


Largou o garfo na pia, passou uma água no pote. Caminhou até a sala, se sentou no sofá, guardou o pote dentro da pasta. Agora, esperaria o horário para ir dormir, enquanto observava na parede do outro lado da sala, o relógio.


Artur era como um relógio quebrado.


Há poucas semanas, uma garota havia se fixado numa mesa em frente a sua. Era tão bonita que o fez suspirar. Não tinha coragem de falar com a menina de olhos verdes. Olhava agora a foto dela em seu celular. Se ela fosse sua namorada, sentiria que estava em terra firme. No entanto, quando viu naquela tarde um homem com um carrinho de bebê se aproximar dela, a abraçar e a beijar, algo rompeu em seu peito.


Lembrou-se da garota por quem fora apaixonado na adolescência. De um dia em que se encontravam sozinhos em frente à casa dela. Era a primeira vez que se davam as mãos. Ele pouco conseguia disfarçar o sorriso. Enquanto a olhava, imaginou-se beijando com paixão. Iria beijá-la com todo amor e carinho que um coração poderia dar, a beijaria com tanto desejo que faria a alma dela se sentir amada. Ele ia beijá-la. A olhou nos olhos. Ele ia beijá-la. A olhou nos lábios. Ele ia beijá-la. Ela deu meia volta e se foi. Ele ia chamá-la, ela passou o portão e ele ficou lá, na rua, sozinho.


Deram as horas. Foi ao banheiro, escovou os dentes, mijou, encarou seu reflexo por um momento. Levantou a camiseta. Tinha notado naquela manhã, enquanto se olhava no espelho. Uma mancha escura.


Acordou de repente, no meio da noite. Respirava pesado. A camiseta estava molhada. Na janela, alguém o observava. Sentiu no peito, como se fosse oco. Tirou a camiseta e viu a sua pele sendo puxada para dentro de um buraco, sentiu a pele das suas costas se rasgando. Ouviu um estalo, seus ombros se deslocaram. Eram sugados com força. Seu braço esquerdo sumiu. Sua barriga começou a ser puxada, suas pernas eram tragadas, como se estivessem encolhendo. Escutou suas entranhas se revirando, arrebentando, num redemoinho de sangue e vísceras. Aquilo era absurdo. Acordaria suado em sua cama numa noite de domingo, sozinho. Foi quando escutou suas vértebras se romperem, uma a uma, em estalos secos, sem ritmo. Seu peito afundou. Sua barriga havia sumido. Suas coxas sumiam no vórtice. E então seu cotovelo, sua mão quebrada, os joelhos, os tornozelos rompidos, os pés, o pescoço quebrado, a mandíbula deslocada, o nariz, os olhos, até que não existisse mais Artur.


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