• Morgana Feijão

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estico meu braço pela cama tentando alcançar as costas encolhidas de alguém que já não quer mais ser alcançável. caminho pela praia com pés descalços que afundam na areia molhada, as ondas enfraquecidas na altura dos tornozelos. desejo bom dia recebendo um beijo na testa que antes era dado nos lábios. na verdade, a culpa é minha. meu coração é árido e vão. minha cabeça, no entanto, minha cabeça, no entanto. afastando-se, afastando-me, cada vez mais longe da realidade que nos cerca enquanto procuro por outras, impossíveis. o que antes foi catarse, agora é elegia. imagens de beleza e de terror – que, afinal, como conversamos e como conversaram antes de nós – afinal, existe algo que se converse que já não foi conversado antes? – afinal, o que podemos pensar se tudo já foi pensado? – afinal, até o inconsciente já foi decifrado, todos nós aceitamos o pensar em fluxo de consciência, alguém descobriu algum elemento novo para preencher a tabela periódica? – afinal, como falamos e como foi falado, beleza e terror, a mesma coisa, e ainda assim me sinto tão especial derramando esse conceito sobre sua boca com a minha, afinal. suspiro distante, fazendo-me distante, olhos fugidios e mãos fugazes, alguém também já falou que sempre seria a distância e nunca outra coisa. alguém também já falou, alguém já escreveu sobre e todo mundo já sentiu e já sabe e nem adianta mais páginas e páginas escritas porque no fim quando se sentir vai ser como se fosse a primeira vez no mundo, como se estivesse inventando algo, ou ao menos, descobrindo – e isso também já foi dito e previsto. e dito, previsto, continua sendo a primeira vez, sempre a primeira vez. de mãos dadas no escuro, a silhueta mais escura que o escuro, olhos fechados para o escuro, sempre fui contra repetição de palavras e hoje tudo o que eu desejo é deitar sob e na escuridão, repetir, repetir, ignorar a claridade e o que deve ser visto antes de ser tocado, quero tocar com pálpebras cerradas e palavras morrendo na garganta, repetir, repetir, não quero sapiência que se associe aos olhos ou aos ouvidos a não ser para ouvir sua respiração que desfaz parágrafos ao pé do meu ouvido o absoluto desfazimento nenhum nó e nenhum corpo e não é triste que tudo que tenhamos seja o corpo e esse seja nosso maior limite o mais intransponível de todos e que nossas palavras não sirvam de verdade e isso também já foi dito as palavras podem explicar e tentar tocar mas elas não podem nem nunca vão ser o corpo é nosso único pilar e nossa única forma de experiência e é assim com mãos e boca que eu apreendo desfaço a distância inexpugnável afinal afinal impossível ultrapassar o corpo entre eu e você um alfinete que atravessa as costas e para o coração a beleza tudo é sempre toque e ausência de toque por muitos e muitos dias imaginei como seria a sua digital na reentrância ardida do meu lábio sempre ferido no mesmo lugar toda imaginação também transfigurada em toque e em sensação física sempre física impossível de escapar e de se lutar contra não foi o que disseram também algo que atravessa você nunca quis amor que não fosse veneração e de volta às costas cada vez mais distantes corredores que não levam a lugar algum pontes reestruturadas em muros murmuro triângulos macios e é dito que minha voz é redonda e não há conteúdo algum que possa dispor da própria forma transformar concreto em leveza transformar uma experiência em outra encher o peito para dizer que vai passar porque vai passar porque sempre passa pegando suas mãos e sorrindo sobre elas falando que vejo meu futuro aí mas que não vejo o seu nas minhas a perfeita entrega e disposição se nossa escada pudesse ser de outra forma e talvez você nos degraus mais altos nunca gostei de poder nem entendi quem gostava talvez por sempre ter tido queria me desfazer como sempre e sempre chegamos a isso a indissolubilidade o corpo resiste fios emaranhados tudo o que eu faço e falo uma tentativa imbecil de já não ser mais alfinetes por todos os lados e um esgar irônico existe um que não seja irônico afinal isso é a beleza afinal

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