• João Marcos F.

Em minhas tentativas de ser um escritor, sempre encontrei ao meu lado dois impasses: o vazio e o nada. O vazio da minha mente, em nunca ter algo para falar, e o nada que ia me tornando aos poucos também um nada, sem nunca produzir, sem nenhuma construção que fizesse realmente alguma diferença. Ter um desejo tão grande de colocar as palavras no papel e desistir, por pura e inocente falta do que dizer, é uma sensação que devasta, te impede de olhar para cima e sorrir. Essa foi minha conclusão, se não tenho nada para dizer, se minha vida é um balde vazio em que os pensamentos não aparecem, então tive de cavar o máximo que pude e tentar entender a existência do vazio, talvez preencher o balde com o nada, concluir de tudo isso algo que pode sim ainda ser vazio, mas que ao menos serve como prova de que até mesmo a falta de inspiração pode inspirar.


Portanto, afirmo que o vazio é enorme. Mesmo sem ser preenchido, ele só aumenta. Continua o mesmo, mas sempre parece maior, mais ameaçador, como se com tanto tamanho nada fosse capaz de detê-lo, de superá-lo em níveis de importância. O vazio é enorme pois é somente ele que se tornou profundo o suficiente para me fazer pensar, duvidar de mim, da realidade e dos elogios. E a folha em branco, vazia, tão pequena, até um tempo atrás parecia ser infinita.


Aprender a lidar com o tédio de um domingo vazio, com o transtorno desesperador que é viver um dia em que nada acontece, com uma vida inteira completamente vazia e mal vivida, com o sentimento pela pessoa amada, aquele que você sabe que existe, que está ali na porta, pronto para entrar, mas que é impedido pelo vazio, só fortalece um olhar fraco, insustentável, quase morto, tão cansado que não consegue sequer chorar. Tudo isso contribui para a rotina da escrita de silêncios, a escrita de um vazio que ironicamente começa a pesar.


Mas esse é o vazio inocente, o vazio que não possui em si mesmo desafio algum. O melhor deles, ou pelo menos o meu favorito, é o vazio existencial, aquele em que você não só se sente vazio como também sente que faz parte de um universo também vazio. Tudo para de fazer sentido, porém, se tudo para de fazer sentido, o sentido agora é a falta de sentido, portanto é ainda possível pensar, e esse pensamento sempre leva ao mesmo vazio. A solução é esvaziar-se, esquecer aquilo que não se tem, pois o maior objetivo dessa linha de pensamento é concluir que o vazio é inalcançável. Mas antes de explicar o motivo, é preciso falar sobre o nada.


Sobre o nada não se tem muito o que falar, afinal ele não é alguma coisa, não é um objeto que possui detalhes, afeto ou sentimento. O nada não é nada, pois é assim que o definimos. Ou seja, deixa de ser nada quando precisamos definir. Num cenário linguístico perfeito, não saberíamos sequer da sua existência. E a fronteira de existência do nada é o tempo, se o tempo não mais existe, o nada então se torna vivo, sem o tempo o nada e nada podem existir. Ficam assim os dois encantados se encarando eternamente nos limites de uma realidade inimaginável.


No meu quarto, exercitando o nada e o vazio, penso em tudo. Todas as coisas que acontecem e as que deixam de acontecer. Vejo lentamente meus sentimentos acumulando, percebo minha ruína se aproximando, como se a decepção fosse um ritual que se repete todos os dias. Não basta a escrita para saciar minha vontade de não dizer, de me conter e deixar morrer uma vontade que surgiu do nada, pois é somente com esse surgimento que consigo anotar minhas conclusões.


O nada é o caos em sua forma caótica, é um delírio purgante que não cessa, que não termina enquanto eu não externar de mim alguma produção. Minha necessidade de escrever é minha necessidade de calar os tormentos infinitos que foram definidos nas leis gerais do universo, levando o mundo a ser uma representação acurada de um nada, de algo que é insignificante no cosmos, mas que é tão ponderado e condizente com a realidade, que até parece algo verídico, algo genuíno e singular.


O nada em sua forma delirante, esconde um sentimento de apreço, uma condição que não nos é acessível, é impossível sequer escrevê-la, pois de fato ela não existe. Porém, para algo não existir, é necessário que algo que existe primeiro o defina, e se algo que existe define algo que não existe, o que não existe não precisaria de definição, pois sequer saberíamos da inexistência do mesmo para então pensar em detalhes, consequências e condições.


O nada em sua forma mais pura é o que a gente não pode mudar. Ele significa a inexistência, algo impossível de existir, sim, mas além disso, de existir novamente. O passado é uma espécie de nada, uma espécie eterna, uma condição da realidade que nos limita e nos impede de trabalhar ou manusear algo que pode mudar o curso da existência.


O tempo, nesse contexto, seria como um dos pilares dessa existência, como uma base, uma raiz, em que tudo o que acontece, desde uma explosão que representa o nascimento do universo, até um pensamento rotineiro no banheiro, tem sua influência e só acontece por causa dele.


O tempo, portanto, seria como uma representação máxima da nossa existência, da nossa condição de vida. Logo, o nada precisa ser inexistente, precisa estar fora do escopo do tempo. Mas se o passado é uma característica do tempo, como ele é uma espécie de nada? O passado só existe no papel e na nossa memória. Passado e futuro são duas invenções que não existem, o tempo é apenas imediato. A única coisa que pode influenciar o tempo é a falta dele, e a falta dele faz nascer o nada, e o nada só possui influência dentro do que está dentro do seu propósito de inexistência, ou seja, tudo que não pode ser influenciado pelo tempo.


Só existe uma coisa que é comum dentro da existência e da inexistência, ou seja, dentro de tudo que é influenciado pelo tempo, e de tudo que não é: o vazio. Diferente do nada, que não existe, o vazio existe, porém, como já dito, ele é inalcançável. O vazio existe porque antes de alcançável ele precisa ser crível o suficiente para se racionalizar. O que é possível na nossa existência comum, ou seja, sempre existirá algo, mas é mais fácil dizer que não existe. E isso acontece quando juntamos o vazio e o nada, pois é somente com o nada que o vazio é alcançado. O vazio só é possível se tiver dentro de si o nada.


Além disso, dizem que qualquer pessoa pode apreciar o vazio sem se contaminar com os excessos da nadificação, pois o vínculo gerado através de algo inalcançável com algo inexistente torna factível as linhas do vazio serem preenchidas com bordas nadificadoras de uma última abstração. Abstração essa que fomenta a nadificação do nada e o esvaziamento do vazio, ou seja, torcer os dois como um pano molhado e extrair disso uma correlação que existe ao menos em texto.


Enfim, a conclusão que se chega é a de que nós nunca estamos vazios, nós sempre temos uma alternativa de lidar com nossa incapacidade, de lidar com nossa frustração diária, mesmo pensando que não temos nada, que somos como uma casca vazia, não somos. Se você consegue pensar, você já é completo, mesmo que o pensamento seja um conjunto articulado de coisas vazias, não importa, até mesmo o vazio possui um impacto, e é esse impacto que te impede de atingir o nada, de ser um nada. Enquanto existir o tempo sempre seremos necessários, sempre seremos alguém, já que uma coisa é certa, mesmo se morrermos, iremos continuar, pois ainda é impossível deixar de existir, e é nossa existência que deixa o vazio sempre preenchido.


Por fim, deixo aos leitores um dos meus tweets que usufruem deste meu pensar, sem dizer, no entanto, o que realmente quero:


“Inundado pelo nada que cortejo, caminho sem pensar numa estrada sem desejo, sorrindo pro vazio que me alimenta, beijo a solidão que me atormenta, apreciando com avidez sua candura, não sinto no peito aquela ternura, aceito que não tenho o carisma daqueles que falam depois de mim.”


  • I. S. L.

Se uma chama alcança o interior dos pés de uma montanha, então se pode declamar que todos os poemas deveriam se intitular: razões para viver feliz. Pelo menos é isto que a caixa de Paracetamol 750 mg® ensina quando o vapor do banheiro desembaça a janela espiritual do gnomo. Não há sal na prateleira, ela gritou a harpia fogo infernal abismo azul fosforescente. Quem pergunta pelo bem-estar da camareira dos Hotéis Hilbert™ de infinitos quartos? Parede de museu branca sangue de tubarão gramíneo – nem rato, nem formiga, gelatina de chapéu neném na janela. Marshmallow com manual de instruções, na janela do carro um rabisco primogênito: armário no fundo do quarto do apartamento da burguesa. Charuto sobre a garrafa mesa. Corda equilibra tartaruga equilibra melancia equilibra borboleta equilibra rosa concha do mar equilibra girassol equilibra morango equilibra peixe equilibra mundo equilibra nuvem azul nada céu fundo cidade floresta. Flamingo beijando laranja tomando banho no fundo da sala de cozinhar o tempero do mico-tigre-prateado-cegonha-pinguim-grou-louça-de-chá-vietnamita. Vasilhame na cabeça do pinguim futebolista onda do mar. Qual rocha tem cheiro de ventilador? Nenhum piso recobrindo o ângulo dos fundamentos da matéria matricial analisada. O que é saber? Quanto pode uma vida? Quando se é?

  • Juliana Mesomo

Quando, por algum motivo, o sono não vem, fico repassando os detalhes do quarto. Não este em que estou. Outro, bem longe daqui. Primeiro, a cama de ferro, antiga, que ainda range um pouco. Depois, a cadeira de palha encostada na porta de madeira. Sobre a cadeira, descansam minhas roupas de viajante cansada. De gente forânea. Os lençóis na cama são brancos com bordados azul-escuro nas pontas. Floridos. O travesseiro branco espera que eu deite a cabeça depois de um banho. O espaço na cama é para dois, mas geralmente tenho ele todo para meu próprio sono plácido. O armário também me agrada. Não é antigo, mas gosto dele porque ali são guardados todos os cobertores da casa. Quando não for mais verão, serão usados dois ou três por cama, contra um frio ingente. O armário também é de madeira, e termina de ocupar o menor dos quartos da casa. De fato, todo ele é de madeira -- o assoalho, as paredes, as janelas -- porque toda a casa também é de madeira, simples e espaçosa. Cinco quartos, uma sala e uma cozinha. Do lado de fora, está revestida por uma tinta velha, verde clara. Trata-se de um magnífico templo de madeira que pela noite estala, voltando a se acomodar depois de ter se expandido num dia de calor. Me agrada muito dormir sob o teto desse templo. Eu o venero. Escuto o vento passar pelas folhas das árvores cujas copas encontram-se bem em frente à janela. Deixo-a aberta para a noite fresca entrar no quarto. Uma cortina leve e branca balança com os eflúvios das estrelas longínquas. Alguns teriam medo. Multidões de grilos falam no meio das lavouras e dos capões. Os parapeitos das janelas da casa são lisos de tanto uso, de tantas mãos que se apoiaram ali ao longo do tempo. Calculo em umas seis décadas a existência da casa neste mundo. Na sala, vazia e escura, qualquer passo seria escutado: as tábuas rangem, não são discretas. Se por acaso algum dos moradores que já usaram o quarto voltasse eu nada poderia fazer a não ser ceder o meu lugar. Sou simplesmente uma visita. Talvez a filha que se entrincheirou nele até o fim da vida volte para reivindicar seus domínios. No seu tempo, não havia serviço de saúde mental e a pessoa fascinada (como diziam) ficava a cargo da família, que nem sempre tinha paciência ou modos para tratar com os nervos alheios. Ali, a filha solteirona gritou de dor e loucura, se vestiu de preto e criou seu mundo até findar de vez. Também poderiam chegar, antes dela, os meninos que cresciam juntos, dormiam juntos, comiam juntos, iam juntos a cavalo para a escola, tudo isso sem deixar de pressentir como um castigo seus destinos de homens atados à terra, que os mantinha longe das circunstâncias da História. Crianças e adultos à margem dos acontecimentos. Meninos que ouviam juntos o rádio anunciando o gol e que despertavam pela noite para ouvir os sussurros metálicos da máquina. Que ouviam os vizinhos trazendo a notícia de que o "homem chegou à lua!" e recebiam de volta a reação incrédula do pai. Simplesmente não era possível. Meninos que dormiam e sonhavam com os mundos que poderiam existir longe dos quilométricos milharais.


De manhã, somos todos guiados pela fumaça até a cozinha para comer rigorosamente o de sempre. O pão, o café, a chimia, o queijo. Enxergo -- já não pela primeira vez -- os parapeitos lisos das janelas e, lá fora, os milharais que nos separaram do resto do mundo. Não sou eu quem habitará para sempre o templo de madeira, mas posso assegurar que não esqueci dele nenhum detalhe.