• Matheus Ultra

O exame de um autor poderia ser iniciado pelas palavras por ele empregadas. No caso de Gilberto Freyre, essa asserção talvez se faça mais visível, já que sua obra é muito bem reputada pela forma com que o historiador emprega as palavras. Muito embora minha leitura esteja concentrada sobre Casa-grande e senzala, diversas obras de Freyre poderiam ser descritas enquanto convergência de dois diferentes horizontes sócio-linguísticos: de um lado, a parte oriunda de um sistema oralmente constituído, cujas palavras são recolhidas de lugares diversos, (que se querem) marcadamente brasileiros, e vão desde a cozinha das baianas, os candomblés e macumbas, a medicina tradicional, histórias de assombração, conversas diretas com ex-escravos e descendentes das famílias senhoriais, nomes para a fauna e flora, as muitas viagens que o autor fez pelo interior do território brasileiro, além, claro, da consulta à erudição disponível. É esse horizonte erudito que irá caracterizar a outra parte do estilo de Freyre: nomes de autores estrangeiros, referência às leituras dos livros de viajantes europeus, livros de história, documentação oficial, teorias antropológicas e culturais, etc.


É necessário frisar, contudo, que a historiografia de Freyre constitui-se também enquanto etnografia, se desenvolvendo por meio de um saber particularmente diverso ao do discurso científico, que também é uma de suas partes constituintes (voltaremos a ele mais adiante). Quando digo que o trabalho de Freyre é também de etnógrafo, não me refiro apenas ao seu método de pesquisa (uma “observação participante”, conforme Malinowski fazia), mas por se caracterizar pela coleta e reconstrução de um sistema sociolinguístico alheio. Seu enorme catálogo de costumes, nomes e anedotas, recolhidos das fontes mais diversas, embora possam às vezes parecer um estilismo inútil e cientificamente despropositado, correspondem ao que Lévi-Strauss trata enquanto modalidades do pensamento selvagem, mitológico: “através desses agrupamento de coisas e seres, [se introduz] um princípio de ordem no universo”. Diz Lévi-Strauss, sobre esse saber que denomina de “ciência do concreto”:


Longe de serem, como muitas vezes se pretendeu, obra de uma "função fabuladora", que volta as costas à realidade, os mitos e os ritos oferecem como valor principal a ser preservado até hoje, de forma residual, modos de observação e de reflexão que foram (e sem dúvida permanecem) exatamente adaptados a descobertas de tipo determinado: as que a natureza autorizava, a partir da organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível.

A escrita de Casa-Grande e Senzala se desenvolve por meio de um procedimento de colagem, com as diversas anedotas interrompendo o fluxo expositivo, próprio da historiografia tradicional. Seu propósito, pelo que me parece, de modo algum seria de caráter ilustrativo ou exemplar, e muito menos ornamental, mas parte da montagem de um acervo etnográfico potente, que deseja efetuar, por dentro de um sistema de palavras e saberes tipicamente europeus, um enxerto estrangeiro, anômalo. Percebam: o discurso que pressupõe uma ordem às coisas, e não às coisas que pressupõe uma ordem em si mesmas. Como diz Lévi-Strauss, "essa exigência de ordem constitui a base do pensamento que denominamos primitivo, mas unicamente pelo fato de que constitui a base de todo pensamento”. Por isso que, bem mais do que um repertório heteróclito de histórias e palavras, em Casa-Grande e Senzala (e também em outros trabalhos), Freyre busca alcançar uma outra ordem das coisas, um outro princípio de percepção.


Como Ricardo Benzaquen assinala, a obra de Freyre “deixa de ser apenas um livro para transformar-se em uma espécie de casa-grande em miniatura, em uma voz longínqua mas genuína, legítima e metonímica representante daquela experiência que ele próprio analisava”, como se, mais do que delimitar a história do Brasil colonial, Freyre a colocasse para falar, como que um médium psicografando os seus mortos.


Esse aspecto de seu projeto intelectual se inscreve em um empreendimento mais largo, que se caracteriza pela busca de certa unidade nacional, a formulação de uma cultura verdadeiramente brasileira, coisa que é, muito provavelmente, o traço predominante de nossa produção intelectual, pelo menos desde o fim do século XIX até meados do século XX. Estando isso dito, vale retomar um outro horizonte sócio-linguístico que frequentemente reaparece em Casa-Grande e Senzala, e que demarca com clareza um outro registro de escrita, oriundo sobretudo da antropologia anglo-saxã e das teorias sociais e culturais alemães. A historiografia de Freyre opera em um nível heterodiscursivo: ora fala de xique-xiques, casa-grandes, da preta Maria Inácia, de touceira de bananeira, alpendres como que trepados em pernas de pau, senhores de engenho, vice-reis e bispos, óleo de baleia, farinha de mandioca, cantigas de berço, santos, terrinas de doce e melado, formigas e macacos, ora de McCollum, “decadência” ou “inferioridade” de raças, hiponutrição e diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico, Simmonds, descalcificação dos dentes e insuficiências tireóidea, Spengler, raça, condições bioquímicas, aquilo que Wissler chama de influência do biochemical content, meio físico, valor histórico-social, etc (todas as palavras aparecem grafadas conforme aparecem em Casa-Grande e Senzala).


Como é possível perceber, sua prosa alterna-se entre dois diferentes universos sociolinguísticos, muito claramente demarcados. De modo geral, diria que se repete a fórmula que Ricardo Piglia empregou para avaliar o estilo de Borges: paródia da linguagem oral (ou de uma linguagem oriunda da oralidade), dos saberes e histórias transmitidos por entre iletrados, e também paródia da erudição, repleto de citações, referências e modos de dizer oriundos da cultura letrada.


  • I. S. L.

Poema improvisado para C. às 00h48 de quarta-feira, 02 jun. 2021, após tomar um café após 4h30 de reunião de condomínio


Cinco flores

formando um

hexágono.

Qual é

a sétima

que,

nas oito direções

cardeais,

encerra

o eneagrama

com dez pontas?


  • João Gabriel

1.

Gostava de pensar que chegaria até a Irlanda um dia. A ilha verde onde falavam uma língua diferente que soava como vento sobre as pedras – se bem que isso fosse uma especificidade que nada tinha a ver com já ter ouvido muito o vento sobre as pedras ou o gaélico irlandês, era só uma coisa ligada ao fato de que nas fotos a Irlanda parecia ventosa e pedregosa –, que era ela mesma feita de vento e pedras e mar. Uma ilha de interesse. Então gostava muito da Irlanda e dos nomes de suas cidades e do fato de ser uma ilha. E pesquisei o que podia sobre a história do local, as sucessivas invasões, os vikings, os normandos, os ingleses. Tudo isso meio que dificultava saber quem era o irlandês. Os irlandeses saíram da Irlanda, houve uma carestia e uma grande fome. Foram para os Estados Unidos da América. Os irlandeses queriam se livrar dos ingleses, houve poetas e dramaturgos e místicos. Depois teve rock e folk e literatura de novo. E os Problemas. Ainda assim, gostava de pensar que um dia iria à Irlanda.


A verdade é que não sei nada da Irlanda, só gosto muito de uma ideia da Irlanda. Essa ideia pouco a pouco se tornou mais clara, mais definida, como uma ilha que se avista no horizonte, assumindo realidade com a aproximação. A ideia: um lugar elementar, um refúgio insular onde grassa o sossego e a horas passam só com as mudanças de luz. Uma espécie de paraíso.



2.

Digamos que existam duas imagens na ideia imorredoura do paraíso. Uma responsável pelos pensamentos acerca do paraíso além-vida, seja qual for, e uma que faz descer do empíreo os anseios por um paraíso mais ou menos terreno, embora sempre distante. A distância é o que mais importa nessa segunda imagem. Esse paraíso há de existir em algum lugar do planeta, com nome e topografia, clima, fauna, flora, talvez seja habitado, mas é tão distante de mim, que pensa tanto nele, que constrói pontes imaginárias para chegar até ele; o paraíso distante sempre do outro lado do oceano. A ideia de paraíso que derivei da Irlanda é precisamente essa.


Acontece que, por mais improvável que fosse, eu poderia um dia alcançar a Irlanda. Um voo com duas ou três escalas seria o bastante. O paraíso terreno tem um truque para se manter como obsessão: deve ser o mais inalcançável possível, seja por dificuldades morais ou pela impostura das distâncias extremas. A Irlanda, a fim de continuar como par da ideia de paraíso, precisava virar outra coisa, e virou por culpa de um irlandês. William Butler Yeats escreveu “A Ilha Lacustre de Innisfree” em 1888. Traduzo de modo amador o poema aqui: Vou me levantar e partir agora, e partir para Innisfree,

E uma pequena cabana lá construirei, de barro e vimes feita;

Nove filas de feijão e uma colmeia dando mel terei ali,

E viverei sozinho na clareira onde o zunzum espreita.


E lá devo alcançar alguma paz, pois a paz vem gotejando lenta,

Gota a gota dos véus da aurora para onde canta o grilo;

Lá a meia-noite é só tremeluzir, o meio-dia, púrpura opulenta

E o entardecer é cheio de pintarroxos em giro.


Vou me levantar e partir agora, pois sempre noite e dia

Ouço a água do lago chegando em som suave na margem;

Esteja eu na estrada ou em calçamentos de cinza fria,

Ouço no fundo do coração sua mensagem.

O primeiro verso da última estrofe, o que diz “Vou me levantar e partir agora, pois sempre noite e dia”, ficou gravado na minha memória desde quando primeiro o li. Não me importava muito o verso seguinte, eu lia esse poema de Yeats e queria que ele terminasse nesse ponto, como se a noite e o dia, essa sucessão sempiterna dos dois, fossem motivo suficiente para se levantar e partir agora. Partir para onde? A caminho do paraíso, o real, o que para sempre noite e dia.



3.

Foi na Irlanda que Bryan Ferry compôs um dos meus álbuns de música preferidos. Na época, ele namorava com Lucy, filha de Patrick Helmore, um corretor de seguros inglês aposentado. Os namorados visitavam muito uma propriedade de Helmore, o Crumlin Lodge. Foi construído em 1912 pelo exército britânico para servir de alojamento de lazer aos oficiais. O lugar em que fica é um charco entre dois lagos, e o prédio foi estranhamente erguido em madeira, uma material não muito adequado aos locais alagadiços. Isso foi culpa de um erro dos militares britânicos, que pretendiam nessa mesma época construir outro alojamento na Índia, esse em madeira, e misturaram às pedras destinadas ao Crumlin Lodge a madeira que deveria chegar à Índia. A propriedade mudou de donos pelos anos até que Patrick a comprou na década de 1960, passando a residir lá com os filhos na década seguinte.


Então é preciso imaginar Ferry em 1980 vivendo um idílio romântico entre os lagos com nomes na língua de vento sobre as pedras, o Ugga Beag e o Ugga Mór, ambos rodeados pela intrigante flora local (Olmos? Carvalhos? Freixos?) convivendo com as ideias paisagísticas de alguém que achou por bem plantar espécies tropicais num brejo irlandês. O que Ferry sentiu ali, o que viu e desejou, o que queria alcançar, enfim, resultou na transformação final que minha ideia do paraíso sofreria, o disco e a canção que lhe dá título: Avalon. O disco do Roxy Music foi composto na Irlanda, mas sua gravação se deu numa cidade insular tropical: Nassau, Nova Providência, Bahamas, o mar do Caribe.


A canção “Avalon” é toda da madrugada ou dos momentos crepusculares, seja o ocaso ou a aurora. Seu cenário é o fim da festa, os amantes solitários e à deriva, a dificuldade do alcance e da comunicação, o cansaço do mundo, a busca por um refúgio, o querer dançar, a voz da ave-do-paraíso e o refrão de evidente mistério que apenas diz o nome, o nome da ilha, das ilhas transfiguradas nesse ritmo de bossa nova falsa, o reco-reco inscrevendo tudo numa cadência caribenha, a rica folhagem tropical que esse ideia de ingleses faz pensar, o refrão: Avalon.



4.

O refúgio de rei Arthur fica no Caribe. A enorme tela de Edward Burne-Jones, o pintor que buscava a Avalon em seu coração, mostra a chegada de Arthur à ilha misteriosa, onde desfruta de seu último e eterno sono. Sempre noite e dia. Está num museu de Porto Rico.



5.

Uma vez, quando meu paraíso inalcançável, embora terreno, embora impossível, já era Avalon, fui num sábado com meu irmão comprar cerveja no Pão de Açúcar. Era 2015 e assistiríamos a um filme mais tarde. Quando pus as mãos num engradado de Heineken, as garrafas verdes como esmeralda, verdes como a Irlanda – um amigo meu mais velho dizia nessa época que cerveja era bebida de maloqueiros e bárbaros porque ele só bebia vinho –, percebi que no som ambiente tocava “Avalon”. Gritei o nome do meu irmão, como se o chamasse através de uma enorme distância, e ele me olhou do outro lado da prateleira mais próxima. Eu tinha lágrimas nos olhos, ele me disse.



6.

Meu avô contava uma história que para mim tem a ver com paraíso. A história é uma tentativa sua de justificar uma peculiaridade anatômica dos italianos. Uma briga estourou na colônia de Guaiçara entre um italiano e um baiano. Ele nunca contou o motivo. O baiano tascou uma facada no traseiro do italiano, que se estrebuchava no chão aos gritos. “Eu vou morrer! Eu vou morrer!”. Meu avô ria e queria dizer com isso que os italianos tinham o coração na bunda.


Eu ria também, mas depois me enternecia. Comecei a pensar no que um italiano estaria fazendo em Guaiçara, uma cidade que recebeu tantos japoneses na segunda leva de imigrantes vindos daquele país distante. Quanto ao solitário italiano, o que ele trouxe de seu país? Atravessou o mar com alguma muda de figo? Uvas? Vinho? Talvez ele tivesse sido atingido pela ideia da morte, mesmo o golpe não sendo em nada fatal, e isso o levou a pensar que jamais veria a Itália de novo, morrendo largado num chão de terra vermelha em vez de terra negra ou entre rochas, como deveria ser o seu chão natal. Será que a Itália tinha se transformado em paraíso para ele nesse instante de sofrimento? Ou o país já há muito havia se tornado um paraíso em seu coração? Vinha de onde?, de Nápoles, de Sorrento, de Palermo ou Siracusa, de uma outra cidade que nunca ouvi o nome? O vulcão perto do lar era paradisíaco para ele? Como se sentiu ao cruzar o oceano? A falta de respostas legitima todas essas perguntas, que não posso nem mesmo fazer hoje ao meu avô, filho de uma madeirense de Funchal e de um português do Porto, e um homem que jamais viu o mar.



7.

Guaiçara, a cidade onde meu avô e meu pai nasceram, fica no centro-oeste paulista, a 440 quilômetros de distância da cidade onde eu nasci e a 110 quilômetros daquela onde moro. Não há lago lá em que exista uma ilha inabitada, como a que serviu de paraíso a Yeats, mas fica perto do rio Tietê. Lá estão enterrados meus bisavós portugueses e meus avós brasileiros. O cemitério marcava antigamente um limite da cidade, que cresceu para além dele, porém não muito. Desfrutei algumas vezes nessa cidade daquela paz que no poema de Yeats vem gotejando lentamente e penso muito no trajeto de casa até lá. Uma viagem de ida e volta à Guaiçara tem a mesma quantidade de quilômetros que a distância de Dublin a Galway, de costa a costa, no meio da ilha da Irlanda. Galway é mais ou menos perto dos dois lagos onde ficava o Crumlin Lodge, em Inverin, no distrito de Connemara. No ano de 1997, Crumlin foi destruído num incêndio que causou a morte Patrick Helmore. Bryan Ferry carregou o caixão de seu ex-sogro, enterrado no cemitério da vila de Inverin. Lucy, a filha de Patrick e ex-esposa de Ferry, aparece como rei Arthur na foto da capa do disco “Avalon”, de 1982. Visto de costas, o rei parece olhar para seu destino final na ilha além das ilhas, como se estivesse começando a viagem que o quadro de Burne-Jones mostra no final. Lucy cometeria suicídio na Irlanda 21 anos depois da morte do pai. Ela teve quatro filhos com Bryan. Um deles se chama Tara, o nome da colina mítica dos reis da Irlanda, sede de poder e autoridade sobre todos os outros reis da ilha. É também o nome da última música do “Avalon”, o último álbum da banda de Ferry, que foi composta e gravada anos antes de seu filho nascer. Um querido amigo me disse uma vez que tara é uma forma de despedida no norte da Inglaterra ou na Escócia, não me lembro. Você diz “tara” em vez de “goodbye”.


A última vez que estive em Guaiçara foi em 2018, durante os festejos juninos. Fui com a namorada e dormimos no mesmo quarto e na mesma cama em que minha bisavó e meu avô morreram. Mas isso não é mórbido, pelo menos eu acho que não. A imagem de suas mortes me faz lembrar hoje da pose do rei deitado em Avalon. Lençóis, mantos, silêncio e descanso. Minha bisavó veio de uma ilha para a qual nunca mais voltou. Não sei se em Guaiçara pensava nisso, nunca lhe perguntei. Ela falava com um sotaque carregado que eu amava ouvir e dizia parca-cola no lugar de Coca-Cola. Não saía muito de Guaiçara, só para ir ao médico na cidade vizinha, e raramente ia para muito mais longe que a igreja de São João Batista, a dois quarteirões de sua casa. A casa continua ali em Guaiçara. Quando penso nela, penso numa ilha, num lago que nunca vi, numa estrada cujo percurso se gravou em meu coração e que atravesso sempre quando ando na minha cidade ou em outras poucas onde já estive de verdade. Como se seguisse uma mensagem.



8.

Perguntaram-me um dia qual era o mais longe de casa a que eu já havia chegado. Respondi que cerca de 1000 quilômetros a leste do lar. Perguntaram o motivo. Disse que foi por amor, sem dizer amor a quê. A uma pessoa, a uma ideia de paraíso, à distância, pois sempre noite e dia.