• Thales Vieira

Jorge não conseguia mais enxergar- estava trancado no quarto de um apartamento com um vira-lata marrom. Andava em círculos naquele local apertado, esbarrando em sua cadeira ou no próprio cachorro. Ambos isolados, com os estômagos roncando e as gargantas secas.


“Maldito foi o dia em que a visão me escapou”.


A janela do quarto permanecia escancarada- era verão, o sol invadia aquele cômodo minúsculo. Agonia perpétua? Talvez. Foram poucas as sentenças proferidas durante algumas semanas de isolamento. O barulho dos carros servia como música para um homem diante daquela situação- os dois permaneciam trancados desde o dia em que Jorge perdeu a chave da porta, e a visão. Folhas de papel com garranchos ilegíveis, marcas de sangue no chão, roupas surradas, canetas sem tinta, paredes sujas, maços de cigarro amassados por cima de uma mesa com um notebook que não funcionava mais, uma televisão com o visor destruído posicionada no meio do quarto, um ventilador desligado, porém, conectado na tomada. As lâmpadas queimadas- como se fizesse alguma diferença entre o dia e a noite para quem não pode mais enxergar. O vira-lata nunca latia- permanecia quieto no canto do quarto, lambendo as patas machucadas.


“Eu sou filho desses malucos que achavam uma boa ideia construir uma civilização”.


Foram as últimas palavras de Jorge antes de despejar um livro qualquer no chão, caindo desacordado durante uma manhã de sol. O vira-lata se aproximou, lambendo os cabelos castanhos, o rosto e os lábios ressecados daquele homem morto.

  • Caique Cabarroz

Pode até ser que não revele, mas não há hoje nenhum técnico em manutenção de escadas (e esteiras) rolantes que não reconheça a importância do serviço mal feito. “A ineficiência é um freio pro capitalismo, ela gera a recorrência de serviço, desacelera a extinção de vagas de emprego e evita o total colapso da sociedade”, costumam dizer no curso de formação e nas reuniões do sindicato.


Se engana quem pensa que isso tenha tornado a vida dos profissionais mais fácil, o serviço-porco-intencional é uma questão da mais complexa ordem: gerir danos, produzir falhas programáticas, realizar reparos de tal modo que torne os mecanismos funcionais apenas por um período determinado de tempo exige maestria. Técnicos mais talentosos, aqueles que são reconhecidos como verdadeiros virtuoses da manutenção de escadas (e esteiras) rolantes, são capazes de prever com margem de duas semanas quando uma escada (ou esteira) voltará a apresentar problemas.


Os mais antigos do ramo contam histórias sobre uma outra época, uma era anterior aos avanços da técnica que possibilitam a ineficiência-eficiente, quando o trabalho bem ou mal feito dependia exclusivamente da destreza do profissional. Esse período sombrio é uma espécie de Idade das Trevas para os técnicos em manutenção de escadas (ou esteiras) rolantes, marcado pela fome, o desemprego e a praga. As empresas travaram verdadeiras batalhas de qualidade, aquelas que realizassem os melhores serviços seriam recomendadas para outros clientes. Em menor escalas, os técnicos também disputavam suas justas, duelos vorazes de performance; realizavam jornadas duplas, triplas, atendimentos emergenciais fora do horário comercial.


Não demorou muito para que essa lógica predatória levasse à ruina todo o setor. As manutenções se tornaram mais escassas na medida em que se tornaram mais eficientes. Escadas (e esteiras) transformadas em verdadeiras máquinas de movimento perpétuo, uma força imparável para qual não existia objeto inamovível. Tentativas foram feitas para romper o moto-contínuo das engrenagens, apelos nefastos, grupos especializados em sabotagem se formaram para entupir os mecanismos de chiclete ou forçar num tranco discreto o rompimento das guias e correias, mas as manutenções já eram de tal forma eficientes que se realizavam mais rápido do que era possível sabotar.


Cortes de custos, demissões em massa, acordos, falências e concordatas pairavam sobre todos. A destruição completa era iminente. Nos corredores, aqueles que eram dados ao humor negro faziam piada sobre ser mais fácil arrumar emprego consertando escadas estáticas (ou esteiras); outros, temendo pelo bem de suas famílias, se renderam à humilhação de trabalhar na manutenção de elevadores. Dois ou três casos mais extremos de tentativas de suicido por cadarço desamarrado nas escadas (e esteiras) horrorizaram a comunidade.


Quando os consultores de negócios abandonaram o barco, o consórcio dos donos de empresas de manutenção de escadas (e esteiras) rolantes não viu outra opção senão apoiar ao apelo místico dos trabalhadores. Líderes de diversos cultos se reuniam no auditório do sindicato, uma fanfarra ecumênica com danças, benção e mantras operava em vigília por dias a fio. Finalmente despertos do transe, os últimos bastiões decidiram então seguir a vida, não havia mais futuro para eles.


Anos se passaram até que uma escada (ou foi uma esteira?) voltasse a quebrar. Mesmo as mais avançadas peças instaladas acabaram sucumbindo à fadiga causada pelo perfeito funcionamento desses moinhos de vento. O pânico foi total, empresas de manutenção de escadas (e esteiras) não passavam de ecos na história agora. O trabalho de encontrar os antigos técnicos sobreviventes constituiu uma verdadeira empreitada historiográfica. Esses homens, já velhos, abatidos, famélicos, contraíram o rosto de forma bizarra, a sua memória muscular esquecera como sorrir. Arrastaram-se semi-vivos ao pé da escada (ou esteira), limparam o limo e a ferrugem das antigas ferramentas, mas ao se depararem com as correias e guias pareciam ter encontrado tecnologia anunáqui tão distanciados da prática estavam.


Quatro dias depois foram chamados novamente, mas algo tinha mudado. Dois trabalhos na mesma semana, duas vezes a mesma escada (ou esteira). O segredo para a longevidade dos seus era fazer perecer, uma casta moderna enraizada pela desfuncionalidade, a ineficiência, a cooperação de sujeitos que operam como engrenagens do caos controlado.

  • Eros Marcelo

Algo me diz

que já é tarde

Os papéis do roteiro

tornaram-se mel

e se desfizeram na língua

como o vento se desfez

na varanda

Algo me chama

trabalhos acadêmicos

filmes de herói

e coceirinha no pé

Segunda à noite

algo bem delicado

me pergunta algo

Esqueci o que era

bastonetes ou

talvez aquilo outro

que aparece na tv

O que?

Bailarinas ou

a revolução armada

ou era outra coisa

menos radical

talvez um pingo de suor

daquele apresentador gordão

que todo mundo ama

em segredo

talvez não amor

empatia

todo mundo empatia em segredo

ou talvez era uma chamada

para a jornada do herói

talvez fosse um poema

que seria ridicularizado

Sim, certa vergonha de ser poeta

mas não tive escolha

Desde cedo

A luz ziguezagueava para mim

e o vento se sumia do meu corpo

menino rede

menino dor de cabeça

menino poeta

menino amarelo mamãe dizia

pálido como macaxeira

pega sol menino

peguei mamãe

sinto falta de ser poeta

mas agora lembrei porque não sou

escrevo para as inutilidades

e minha delicadeza é falsa

meu carinho é ponto e vírgula

e na minha escrita falta dois

artigos ou outras letras

que Noé não deu tanta importância

Por que carregar lhamas?

Por que deus falou com Noé

e não com as lhamas?

Quem julgou a nossa superioridade moral

sobre as lhamas

aliás por que tantos porquês

Ah entendi

É por isso que sou poeta.